Category Archives: Panorama

Muito obrigado!

O Comitê Organizador do Mundial de Futebol de Rua quer expressar por meio desta mensagem nossa imensa gratidão pela colaboração que nos foi dada por todos os colaboradores: funcionários da Ação Educativa, profissionais terceirizados, voluntários, equipes do SESC, Prefeitura, especialmente dos CEUs, e demais instituições envolvidas com a realização do evento.

Agradecemos também as instituições parceiras: Comitê Internacional dos Trabalhadores da Volkswagem, Terre des Hommes e Prefeitura de São Paulo, através de suas sete secretarias (Assistência Social; Cidadania e Direitos Humanos, Esporte, SP Copa, Saúde, Cultura, Educação) e duas subprefeituras (Sé e Pinheiros).

Um agradecimento na mesma intensidade para nossos patrocinadores: Petrobrás e Volkswagem.

E nosso reconhecimento a todas as demais organizações que nos apoiaram: Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo; SESC; Museu do Futebol; CCJ Ruth Cardoso; Água Belafonte; Instituto Unibanco; Global Editora; CESE; Sindicato dos Comerciários/UGT, UNAS, Movimento da População Moradora de Rua, B Arquitetos, Agência Solano Trindade; Narra Várzea. Uma saudação especial à nossa produtora, AM3 Eventos.

Queremos que todos sejam acolhidos em nossa manifestação de agradecimento e carinho. O Mundial de Futebol de Rua foi obra de muitos, por isso deu certo. E sendo realizado por muitos, que sejam todos merecedores das glórias alcançadas. Muito obrigado!

Veja a carta de agradecimento completa aqui.

Por Periferia em Movimento

A colombiana Yusnerys Cervantes, de 14 anos, quase não viajou ao Brasil para participar do Mundial de Futebol de Rua. “Minha mãe não queria deixar eu vir”, diz ela, que agora volta com o título para Barranquilla, sua cidade natal. “Sou campeã”.

Yusnerys foi um dos destaques da seleção da Colômbia, que sagrou-se campeã do torneio ao ganhar do time de Israel por 2 a 0 na final realizada neste sábado (12 de julho) em São Paulo.

Febre amarela: Colômbia campeã do Mundial de Futebol de Rua

Febre amarela: Colômbia campeã do Mundial de Futebol de Rua

Febre amarela: Colômbia campeã do Mundial de Futebol de Rua

Febre amarela: Colômbia campeã do Mundial de Futebol de Rua

No fim das contas, entretanto, todos saem vencedores.

Provas disso foram as lágrimas, abraços, flertes, poses para fotos e trocas de camisas entre 300 jovens dos 20 países participantes durante o encerramento do campeonato na arena montada em plena avenida Ipiranga, no centro da cidade.

“Aqui, conhecemos muita gente, fizemos muitos amigos e pudemos expressar nossa renúncia à FIFA”, diz a jogadora Queralt Ferrer, 20, da seleção da Catalunha.

Apesar de não avançar no campeonato, os catalães aproveitaram o momento para divulgar a cultura e a luta política de um povo que reivindica a independência de seu território.

“Mostramos aos demais que somos diferentes da Espanha, que temos nossa própria língua e somos mal tratados política e economicamente pelo governo”, explica Laia Arrey, 19, de Barcelona.

Seleção da Catalunha aproveitou o torneio para divulgar luta por independência do povo catalão

Seleção da Catalunha aproveitou o torneio para divulgar luta por independência do povo catalão

Presente no evento, o senador Eduardo Suplicy destaca a característica agregadora do esporte. “É bonito de se ver essa confraternização entre pessoas de diferentes culturas e origens que se conhecem e se respeitam pelo futebol”, avalia.

A realização do Mundial de Futebol de Rua também abre espaço para discutir o esporte como política pública.

“Os coordenadores dos CEUs já se manifestaram a favor da criação de uma rede com a utilização dessa metodologia, assim como subprefeituras e a Secretaria Municipal de Direitos Humanos de São Paulo”, revela Rodrigo Medeiros, sociólogo da Ação Educativa e coordenador de mobilização do Mundial. “As próximas semanas serão de conversas com o poder público”.

Outro legado é a criação de uma rede formada por jogadores de São Paulo com o objetivo de disseminar a metodologia por toda a cidade.

“Esse Mundial foi como uma escola. A cada dia, aprendíamos uma coisa nova. Em 12 dias, ensinamos português e também aprendemos um pouco da língua deles [uruguaios e costa-riquenhos, que dividiram o alojamento no CEU Meninos]”, diz Vitor Vinícius, 16, morador de Sapopemba e um dos jogadores brasileiros.

“A avaliação final é de que, além de tudo, temos que ter respeito pelo próximo porque, mesmo não falando sua língua, ele é igual a você”, completa Vitor, que no ano que vem participa de um encontro entre mediadores de futebol de rua no Equador.

Em 2015, também acontece um encontro com jovens latino-americanos em Buenos Aires, Argentina. O objetivo é discutir questões dos países da região por meio do futebol. As partidas serão jogadas na avenida Nove de Julio, considerada a via mais larga do planeta.

“Colocamos a juventude, a mulher e o homem em um lugar mais elevado, com condições para construção de uma sociedade mais cidadã e humana onde o idioma não é dificuldade”, diz Fernando Leguiza, diretor da Fundación Fútbol para el Desarrollo (FUDE) e um dos idealizadores do futebol de rua.

A próxima edição do campeonato acontece em 2018, na Rússia, novamente em paralelo a uma Copa do Mundo da FIFA.

Um longo caminho ainda deve ser percorrido até lá, mas os participantes já contam com um apoiador de peso: o papa Francisco, que enviou uma mensagem aos participantes do Mundial de Futebol de Rua no Brasil. “No mundo de hoje, são tantos os exemplos de situações que promovem a violência e a guerra. Esse campeonato é exemplo de que, quando queremos construir algo juntos, nós conseguimos”, escreveu o papa. 

Primeiro tempo: equipes da Colômbia e Israel definem regras da partida final do Mundial de Futebol de Rua

Primeiro tempo: equipes da Colômbia e Israel definem regras da partida final do Mundial de Futebol de Rua

Segundo tempo: jogo disputado na avenida Ipiranga, centro de São Paulo

Segundo tempo: jogo disputado na avenida Ipiranga, centro de São Paulo

Segundo tempo: jogo disputado na avenida Ipiranga, centro de São Paulo

Segundo tempo: jogo disputado na avenida Ipiranga, centro de São Paulo

Seleção colombiana é formada por jovens da cidade de Barranquilla

Seleção colombiana é formada por jovens da cidade de Barranquilla

Seleção de Israel integra jovens de diferentes origens e religiões

Seleção de Israel integra jovens de diferentes origens e religiões

Equipe de mediadores: eles foram responsáveis por acalmar os ânimos e promover o diálogo entre os jogadores

Equipe de mediadores: eles foram responsáveis por acalmar os ânimos e promover o diálogo entre os jogadores

Terceiro tempo: jogadores avaliam se regras acordadas foram cumpridas durante a partida

Terceiro tempo: jogadores avaliam se regras acordadas foram cumpridas durante a partida

Clima de confraternização no encerramento do Mundial: jovens assinam bandeira da delegação do Rio Grande do Sul

Clima de confraternização no encerramento do Mundial: jovens assinam bandeira da delegação do Rio Grande do Sul

Por Periferia em Movimento

No Mundial de Fútbol Callejero, diferente do futebol convencional, muitas regras são definidas a cada jogo pelos próprios participantes. Mas uma regra comum a todas as partidas é a presença garantida de meninas e meninos em campo. Uma convivência que podia não dar certo, mas com o respeito como mais um dos princípios aplicados, todo mundo consegue dar sua contribuição para um bom jogo.

É possível vê-las jogando em diferentes posições

É possível vê-las jogando em diferentes posições

As meninas mostraram que podem jogar de igual para igual e assumiram belas jogadas e gols como fizeram as jovens da África da Sul, Colômbia, Peru e Brasil. Em alguns times, como goleiras, são responsáveis também por importantes defesas como é o caso nas delegações do Paraguai e Catalunha.

As jogadoras estavam em maior número na delegação da Catalunha

As jogadoras estavam em maior número na delegação da Catalunha

Apesar de algumas jogadoras já terem experiência e habilidades no esporte, para as cinco meninas de Heliópolis, São Paulo, que integram duas das três equipes brasileiras, foi a primeira vez em um time misto. “A gente já joga há muito tempo, mas é a primeira vez que jogamos com os meninos”, conta a educadora social Adriana Nascimento, 30 anos, que neste Mundial é mediadora, mas em seu bairro faz parte do grupo de meninas que treina na União de Núcleos, Associações e Sociedade de Moradores de Heliópolis (UNAS). No ano passado, o time se mobilizou para criar o primeiro campeonato local de futebol feminino.

Já Monica Helena F. de Oliveira, 16 anos, está acostumada a dividir o campo com o sexo masculino. “No começo foi difícil, fiquei com medo de jogar com eles, porque são mais fortes, mas agora é normal”. Há dois anos a brasileira joga futebol de rua seguindo a metodologia aplicada no Mundial. Ela faz parte do Programa Esportivo Integral (PEI) da universidade Unisinos, em São Leopoldo, município de Porto Alegre (RS).“A gente aprende que tem que respeitar os outros e isso motiva a união entre os jogadores”.

Vinícius S. Gonçalves já jogava com as meninas de sua rua quando entrou no PEI há 1 ano no grupo de Monica Helena

Vinícius S. Gonçalves já jogava com as meninas de sua rua quando entrou no PEI há 1 ano no grupo de Monica Helena

Outras jovens no Mundial, além de jogarem pela primeira vez nesse formato, não tem muita intimidade com o esporte como é o caso das serra-leonesas. “O nosso time foi formado há pouco tempo para participar do Mundial e as meninas não jogam muito futebol no nosso país. Mas para esse estilo de jogo isso não é um problema”, garante Ajara Bomah, coordenadora do Sierra Leone Youth Advocate Program, organização não-governamental de onde veio toda a delegação de Serra Leoa para o Mundial de Futebol de Rua. Para ela, o ganho maior desse evento internacional é a oportunidade de conhecer pessoas de vários lugares do mundo que “percebemos ter muito em comum”.

Na delegação de Israel o time lida tranquilamente com a diversidade. Dentro da equipe de dez pessoas, três são meninas. Todos treinam juntos em seu país no centro esportivo municipal Agudat Sport Ramat Hasharon. No time também têm a convivência entre judeus e muçulmanos. “A religião de cada um não importa. Somos melhores amigos”, conta o goleiro do time Yoav Sborovsky, de 18 anos. A jogadora israelense Roni Shimrich, 20 anos, completa “Entre a gente é muito sorriso, cooperação, não tem competição, brigas”.

Yoav Sborovsky, Maya e Roni Shimrich jogam juntos pelo time do centro esportivo Agudat Sport Ramat-Hasharon, em Israel

Yoav Sborovsky, Maya e Roni Shimrich jogam juntos pelo time do centro esportivo Agudat Sport Ramat-Hasharon, em Israel

Futebol como ferramenta para discutir questões de gênero

O fútbol callejero permite abordar diversos assuntos entre seus praticantes. Promove diálogos que contribuem para a construção de cidadãos mais conscientes de seus direitos e que respeitam a diversidade cultural, social e étnico racial.

Na Costa Rica, em San José, a iniciativa “Fútbol por la Vida”, que trouxe sua delegação para o Mundial, também trabalha a questão de identidade de gênero durante os encontros com a equipe. A proposta é sensibilizar os jovens sobre os padrões culturais patriarcais que influenciam no desenvolvimento humano e promover um novo tipo de relação entre homens e mulheres.

No primeiro jogo entre Catalunha e Israel no Mundial as jovens foram em alguns momentos maioria em campo

No primeiro jogo entre Catalunha e Israel no Mundial as jovens foram em alguns momentos maioria em campo

O projeto Partidí, todos juegan, todos ganan, integra meninos e meninas por meio do fútbol callejero em Assunção, Paraguai

O projeto Partidí, todos juegan, todos ganan, integra meninos e meninas por meio do fútbol callejero em Assunção, Paraguai

 

Por Periferia em Movimento

Além da equipe de funcionários dos CEUs e dos organizadores do evento da Ação Educativa e da Fundación Fútbol para el Desarrollo (FUDE), voluntários colocaram a mão na massa para fazer o Mundial acontecer. Em apresentações artísticas, durante os jogos ou nos CEUs eles deram a sua contribuição.

Issac Bezerra foi convidado para participar da equipe de voluntários por atuar em projetos sociais pela União dos Moradores e Comércio de Paraisópolis. Ele assumiu o turno da noite no CEU e era responsável por acompanhar a última refeição do dia e a acomodação nos quartos montados separadamente para meninos e meninas. Mas Issac curtiu tanto essa experiência que podia ser encontrado no CEU bem depois de seu horário.

Jaiany Regina F. Silva, de 22 anos, desde os 14 se envolve com ações diversas no bairro também. Como voluntária, ficou bem próxima das delegações e pode perceber a mudança de opinião dos estrangeiros sobre o Brasil. “A maioria acha que o Brasil se resume ao Rio de Janeiro, as favelas de lá e a cultura do carioca. Quando conheceram aqui mudaram bastante”, conta. “Já tem gente falando que depois do Mundial quer voltar mais vezes para cá, outros falam que pensam até em morar no país”. 

Devidamente uniformizados, os voluntários estavam em todos os lugares

Devidamente uniformizados, os voluntários estavam em todos os lugares

Issac curtiu tanto essa experiência que podia ser encontrado no CEU bem depois de seu horário

Issac curtiu tanto essa experiência que podia ser encontrado no CEU bem depois de seu horário

Por Periferia em Movimento

Pode-se dizer que o papel do mediador é o mais importante da jogada quando o assunto é fútbol callejero. E durante o Mundial foi fácil perceber sua atuação em todas as partidas. É ele que no primeiro tempo conduz a conversa e define com os times o que será regra. Enquanto a bola rola, sua tarefa é observar o andamento da jogada e chamar a atenção caso os acordos não sejam respeitados ou mediar possíveis conflitos durante o jogo. Ao final, cabe ao mediador ajudar na avaliação coletiva e na definição de pontos baseada não só no número de gols.

Sara Guzmán Velásquez, 23 anos, é experiente nessa função. Ela foi mediadora nesse Mundial pela delegação da Costa Rica. A jovem e sua equipe integram a iniciativa Fútbol por la Vida, que há 8 anos trabalha com o fútbol callejero em San José. Eles atuam com 450 crianças e jovens das comunidades de Tejarcillos de Alajuelita, Carpio e Corina. A seleção para jogar no Mundial foi feita com base em 4 critérios: situação social, frequência no centro esportivo, capacidade física para jogar e ser um bom exemplo na comunidade.

Sara Guzmán é mediadora e educadora física no projeto Fútbol por la Vida

Sara Guzmán é mediadora e educadora física no projeto Fútbol por la Vida

Eles ficam na beira do campo lembrando as regras principais "Respeito! Solidariedade!"

Eles ficam na beira do campo lembrando as regras principais “Respeito! Solidariedade!”

Por Periferia em Movimento

Para a delegação de Serra Leoa, não foi fácil a viagem para o Mundial de Futebol de Rua. Os integrantes da equipe precisaram ir até Guiné, país vizinho, para conseguirem o visto. Por isso, desembacaram no Brasil só no dia 5, quatro dias depois das outras delegações. “Foi ruim porque perdemos muitas atividades legais de integração”, lamenta Ajara Bomah, coordenadora do programa Sierra Leone Youth Advocacy (SLYAP), de onde todos da equipe fazem parte.

Em um país que viveu uma guerra civil entre 1991 e 2002, hoje não tem mais problemas com crianças soldados, mas ainda sofre consequências desse período. A ONG SLYAP, por exemplo, trabalha com muitos jovens que ficaram órfãos nessa época. “Nós apoiamos muito na escola, mas também incentivamos a educação informal e empoderamos os jovens para que se desenvolvam e tenham consciência política”. Para Ajara, a importância de participar do Mundial foi “ver a mistura de culturas e perceber que as questões sociais são iguais nos outros países”.

Na última hora a delegação de Serra Leoa conseguiu embarcar para o Brasil a tempo de sua primeira partida com o Chile

Na última hora a delegação de Serra Leoa conseguiu embarcar para o Brasil a tempo de sua primeira partida com o Chile

A delegação de Serra Leoa ficou no CEU Jaguaré junto com as equipes do Equador, Argentina e Guatemala

A delegação de Serra Leoa ficou no CEU Jaguaré junto com as equipes do Equador, Argentina e Guatemala

Por Periferia em Movimento

Longe das modernas arenas, os jogadores que participam do torneio se fizeram no espaço mais democrático do futebol: a rua

Nada de Messi, Benzema ou Cristiano Ronaldo. Sem salários milionários, quem brilha no Mundial de Fútbol Callejero são mais de 300 jovens acostumados a rolar a pelota em ruas e campinhos de terra batida em periferias de 20 países.

Sede da última Copa da FIFA, a África do Sul não participou da edição deste ano. Mas no torneio de futebol de rua, o país está bem representado no campeonato, que acontece na cidade de São Paulo. “É muito bom estar aqui, ter contato com tantas culturas e línguas. Não esperava isso”, diz o jogador Athaphelele Ngwendu, 16, que desde criança se diverte com a bola nos becos da cidade de Port Elizabeth.

É num terrão de La Portada, em La Paz, que o boliviano Joel Vidal, 16, passa boa parte de seus domingos. Há sete anos, ele conheceu o fútbol callejero, metodologia que utiliza a prática esportiva para mediar conflitos e disseminar a cultura de paz. “Nós buscamos aplicar os valores dentro e fora de campo”, garante ele.

Vidal é um dos integrantes da seleção da Bolívia. Antes do Mundial, a maior distância que ele havia percorrido em uma viagem foi até Santa Cruz de la Sierra, dentro de seu país natal, para um torneio nacional. Mas o trajeto para São Paulo não foi tão fácil: os bolivianos encararam três dias de busão.

Sacrifício? Que o diga os jogadores da Colômbia, que por dois anos venderam marmitex para pagar as passagens até o Brasil. “Me sinto orgulhoso por representar meu país e quero levar o troféu para casa”, promete o atleta Aldair Rodriguez.

“Primo distante” de James Rodriguez, que foi  a sensação colombiana na Copa da FIFA, o rapaz de 19 anos cresceu chutando bola nas ruas de Barranquilha, considerada uma das cidades mais violentas do país. Há três anos, pratica o fútbol callejero e é um dos destaques da delegação no Mundial. No jogo válido pelas oitavas de final, Rodriguez marcou um dos quatro gols contra a Costa Rica.

Apesar da goleada, não tem rancor no lado adversário. “Estamos convivendo com pessoas de outros países e aprendendo muitas coisas”, diz Gisela Ríos, 16 anos, da equipe costa-riquenha. “São coisas que me ajudam a ser uma pessoa melhor e me mostram que eu também tenho meu valor”, completa a amiga Fabiola Siqueira, 18.

Gisela e Fabiola vivem, respectivamente, em Carpio e Alguelita (comunidades pobres da capital San José) e praticam o fútbol callejero há pelo menos quatro anos. Antes, já jogavam bola, mas sem a devida atenção a regras como respeito e solidariedade entre adversários.

A concepção sobre o esporte também mudou para o equatoriano Josué Romero, 19, da cidade de Guaiaquil. “Antes, eu jogava só para mim. Agora, jogamos pelo coletivo e com as meninas junto”, diz ele, que também faz sua primeira viagem internacional. “É muito bom ver tanta gente junta com o mesmo objetivo, jogando pela paz”, completa. Além do título, Romero espera voltar ao Equador com uma nova visão de mundo e já planeja iniciar a faculdade de Engenharia Civil.

Isaac Donkor, 17, também faz planos. Ele faz parte da seleção de Gana, mas só conheceu o fútbol callejero ao ser convidado para participar do campeonato. “Quero voltar ao meu país, ensinar esse tipo de futebol nas nossas comunidades e fazer parte desse movimento”, diz.

E, mesmo para quem ficou de fora do torneio, a viagem valeu a pena. O goleiro peruano Alessandro Garcia, 19, sofreu uma contração muscular no primeiro dia do Mundial e está impedido de jogar até regressar a Lima. Enquanto isso, ele avalia o desempenho dos adversários e aproveita para trocar conhecimento, como aprender danças típicas da Colômbia e Bolívia. “Minha vida está mudando. Estou mais responsável, amadurecendo minhas ideias e quero voltar para o Peru como mediador”, conclui. Afinal, quem disse que era o fim da linha?

O equatoriano Josué Romero deixou de lado as jogadas individuais para se tornar craque da coletividade

O equatoriano Josué Romero deixou de lado as jogadas individuais para se tornar craque da coletividade

Contundido, o goleiro Alessandro Garcia quer voltar ao Peru como mediador

Contundido, o goleiro Alessandro Garcia quer voltar ao Peru como mediador

Fabiana Siqueira e Gisela Rios, da Costa Rica, perderam de 4 a 0 para a Colômbia. Mas sem rancor: a troca de experiências é mais importante do que a vitória no jogo

Fabiana Siqueira e Gisela Rios, da Costa Rica, perderam de 4 a 0 para a Colômbia. Mas sem rancor: a troca de experiências é mais importante do que a vitória no jogo

Aldair Rodriguez quer voltar para a Barranquilha com a taça que o "primo" James Rodriguez não pode levar para a Colômbia na "outra" Copa

Aldair Rodriguez quer voltar para a Barranquilha com a taça que o “primo” James Rodriguez não pode levar para a Colômbia na “outra” Copa

Três dias de ônibus entre La Paz e São Paulo não impediram Joel Vidal de, entre outras coisas, jogar capoeira

Três dias de ônibus entre La Paz e São Paulo não impediram Joel Vidal de, entre outras coisas, jogar capoeira

A África do Sul ficou de fora da Copa da FIFA, mas tá no Mundial de Futebol de Rua com Athapelele Ngwendu e companheiros

A África do Sul ficou de fora da Copa da FIFA, mas tá no Mundial de Futebol de Rua com Athapelele Ngwendu e companheiros

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Os participantes do Mundial de Futebol de Rua tinham em comum pelo menos uma coisa: todos contribuem com o desenvolvimento social em seu país. Os integrantes da delegação do Peru, por exemplo, participam da organização Ruwasunchis, que atua em Manchay, uma comunidade no distrito de Pachacamac, Lima. Em 2006, pesquisa feita pela Fondo de Cooperación para el Desarrollo Social registrou que na região 75% da população não tinha serviço de abastecimento de água, 24% viviam sem eletricidade e a taxa de desnutrição entre crianças de 6 a 9 anos chegava a 12%.

Os índices melhoraram bastante desde 2006 graças à luta da própria comunidade e da atuação da Ruwasunchis que há oito anos e meio iniciou seu trabalho com crianças, mas hoje realiza diversas atividades de resgate da cultura, geração de renda, preparo para o mercado de trabalho e combate a violência doméstica com três diferentes públicos. São 120 crianças, 100 jovens e 30 mulheres.

Gabriela Koc, psicóloga e voluntária da instituição, garante que todo o trabalho desenvolvido no lugar segue a influência de três bases estratégias: acompanhamento psicológico – conhecer melhor a si, fortalecimento da comunidade – crescimento coletivo e consciência ambiental – preservar o meio em que vive. 

Juan Diego, o idealizador da Ruwasunchis, integrou a delegação do Peru junto com Gabriela Koc

Juan Diego, o idealizador da Ruwasunchis, integrou a delegação do Peru junto com Gabriela Koc

Vieram para o Brasil tanto jovens que estão na Ruwasunchis desde sua criação quanto outros que acabaram de entrar

Vieram para o Brasil tanto jovens que estão na Ruwasunchis desde sua criação quanto outros que acabaram de entrar

Por Periferia em Movimento

No futebol padrão rua, não tem vez para Galvão Bueno. Durante as partidas do Mundial de Futebol de Rua, os caminhos percorridos pela pelota nas quatro linhas foi acompanhado pelo Narra Várzea. O coletivo foi criado no ano passado com a união de amigos que têm em comum a arte, a militância nas periferias e a paixão pelo futebol. Desde então, Eduardo Brechó, Dugueto Shabaz, Akins Kintê, Kenyata, DJ Tano e Alex Barcelos percorrem campinhos de terra batida nas quebradas de São Paulo para narrar peladas e campeonatos de futebol de várzea.

A narração irreverente e os comentários bem humorados renderam um convite para participar dos jogos do Mundial. “Somos artistas com uma atuação política contra o racismo e a desigualdade social. Aceitamos participar porque o campeonato também propõe essa discussão”, explica Brechó. Além do futebol de qualidade, os narradores se surpreenderam com a inexistência de brigas nas partidas, o diálogo entre os jogadores e o desempenho de equipes mistas formadas por meninos e meninas. “Esse futebol é uma quebra de paradigmas, até mesmo dos meus próprios preconceitos”, completa Brechó, antes de narrar o jogo final entre Colômbia e Israel.

Além de narrador, Eduardo é músico e integra a banda Aláfia, que mistura hip hop, jazz e ritmos afro-brasileiros

Além de narrador, Eduardo é músico e integra a banda Aláfia, que mistura hip hop, jazz e ritmos afro-brasileiros

Na beira do campo a visão é privilegiada e nenhum lance escapa

Na beira do campo a visão é privilegiada e nenhum lance escapa