Por Periferia em Movimento

A colombiana Yusnerys Cervantes, de 14 anos, quase não viajou ao Brasil para participar do Mundial de Futebol de Rua. “Minha mãe não queria deixar eu vir”, diz ela, que agora volta com o título para Barranquilla, sua cidade natal. “Sou campeã”.

Yusnerys foi um dos destaques da seleção da Colômbia, que sagrou-se campeã do torneio ao ganhar do time de Israel por 2 a 0 na final realizada neste sábado (12 de julho) em São Paulo.

Febre amarela: Colômbia campeã do Mundial de Futebol de Rua

Febre amarela: Colômbia campeã do Mundial de Futebol de Rua

Febre amarela: Colômbia campeã do Mundial de Futebol de Rua

Febre amarela: Colômbia campeã do Mundial de Futebol de Rua

No fim das contas, entretanto, todos saem vencedores.

Provas disso foram as lágrimas, abraços, flertes, poses para fotos e trocas de camisas entre 300 jovens dos 20 países participantes durante o encerramento do campeonato na arena montada em plena avenida Ipiranga, no centro da cidade.

“Aqui, conhecemos muita gente, fizemos muitos amigos e pudemos expressar nossa renúncia à FIFA”, diz a jogadora Queralt Ferrer, 20, da seleção da Catalunha.

Apesar de não avançar no campeonato, os catalães aproveitaram o momento para divulgar a cultura e a luta política de um povo que reivindica a independência de seu território.

“Mostramos aos demais que somos diferentes da Espanha, que temos nossa própria língua e somos mal tratados política e economicamente pelo governo”, explica Laia Arrey, 19, de Barcelona.

Seleção da Catalunha aproveitou o torneio para divulgar luta por independência do povo catalão

Seleção da Catalunha aproveitou o torneio para divulgar luta por independência do povo catalão

Presente no evento, o senador Eduardo Suplicy destaca a característica agregadora do esporte. “É bonito de se ver essa confraternização entre pessoas de diferentes culturas e origens que se conhecem e se respeitam pelo futebol”, avalia.

A realização do Mundial de Futebol de Rua também abre espaço para discutir o esporte como política pública.

“Os coordenadores dos CEUs já se manifestaram a favor da criação de uma rede com a utilização dessa metodologia, assim como subprefeituras e a Secretaria Municipal de Direitos Humanos de São Paulo”, revela Rodrigo Medeiros, sociólogo da Ação Educativa e coordenador de mobilização do Mundial. “As próximas semanas serão de conversas com o poder público”.

Outro legado é a criação de uma rede formada por jogadores de São Paulo com o objetivo de disseminar a metodologia por toda a cidade.

“Esse Mundial foi como uma escola. A cada dia, aprendíamos uma coisa nova. Em 12 dias, ensinamos português e também aprendemos um pouco da língua deles [uruguaios e costa-riquenhos, que dividiram o alojamento no CEU Meninos]”, diz Vitor Vinícius, 16, morador de Sapopemba e um dos jogadores brasileiros.

“A avaliação final é de que, além de tudo, temos que ter respeito pelo próximo porque, mesmo não falando sua língua, ele é igual a você”, completa Vitor, que no ano que vem participa de um encontro entre mediadores de futebol de rua no Equador.

Em 2015, também acontece um encontro com jovens latino-americanos em Buenos Aires, Argentina. O objetivo é discutir questões dos países da região por meio do futebol. As partidas serão jogadas na avenida Nove de Julio, considerada a via mais larga do planeta.

“Colocamos a juventude, a mulher e o homem em um lugar mais elevado, com condições para construção de uma sociedade mais cidadã e humana onde o idioma não é dificuldade”, diz Fernando Leguiza, diretor da Fundación Fútbol para el Desarrollo (FUDE) e um dos idealizadores do futebol de rua.

A próxima edição do campeonato acontece em 2018, na Rússia, novamente em paralelo a uma Copa do Mundo da FIFA.

Um longo caminho ainda deve ser percorrido até lá, mas os participantes já contam com um apoiador de peso: o papa Francisco, que enviou uma mensagem aos participantes do Mundial de Futebol de Rua no Brasil. “No mundo de hoje, são tantos os exemplos de situações que promovem a violência e a guerra. Esse campeonato é exemplo de que, quando queremos construir algo juntos, nós conseguimos”, escreveu o papa. 

Primeiro tempo: equipes da Colômbia e Israel definem regras da partida final do Mundial de Futebol de Rua

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Segundo tempo: jogo disputado na avenida Ipiranga, centro de São Paulo

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Seleção colombiana é formada por jovens da cidade de Barranquilla

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Seleção de Israel integra jovens de diferentes origens e religiões

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Equipe de mediadores: eles foram responsáveis por acalmar os ânimos e promover o diálogo entre os jogadores

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Terceiro tempo: jogadores avaliam se regras acordadas foram cumpridas durante a partida

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Clima de confraternização no encerramento do Mundial: jovens assinam bandeira da delegação do Rio Grande do Sul

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Por Periferia em Movimento

Enquanto em Israel o conflito é intensificado a cada dia, a delegação do país que veio ao Brasil para o Mundial de Futebol de Rua provou que uma nova consciência guiada pelo diálogo é possível. Os jovens que tem em sua equipe judeus e muçulmanos, treinam juntos no centro esportivo municipal Agudat Sport Ramat Hasharon, em Israel. Para eles, a religião de cada um não importa e vieram para o evento dispostos a fazer amizade acima de tudo: “O futebol é para unir as pessoas de todo o mundo”, define o goleiro do time Yoav Sborovsky, de 18 anos, que admitiu ter visto mais semelhanças do que diferenças nas outras delegações.

Mas uma necessidade especial foi manifestada por eles. Por conta de suas crenças, não podiam comer qualquer coisa. Foi providenciada uma alimentação sem carne de porco e em nenhum momento podiam misturar carne e derivados de leite em uma mesma refeição.

Os israelenses marcaram presença dentro e fora de campo. Deram um bom exemplo de convivência ao dividirem a instalação no CEU Paraisópolis com as delegações da Catalunha, Alemanha, Estados Unidos e Paraguai. E no campeonato a equipe conquistou o segundo lugar.

A delegação de Israel lida com a diversidade cultural de forma natural

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Yoav Sborovsky, Maya e Roni Shimrich jogam juntos e são melhores amigos

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